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Ronaldo Brito - O pensamento contemporâneo da cor
23/04/1998

Eduardo Sued é o grande desinibidor das linguagens abstratas, de origem construtiva, na pintura moderna brasileira. Em suas mãos essas linguagens alcançam uma fluência inédita, um sofisticado discernimento estético junto à indispensável relativização histórica, alcança, enfim, uma perfeita aclimatação. Em termos de disciplina estrita de pintura, no que se refere à construção de um pensamento autônomo em pintura – isto é, a solução de uma pictórica – a obra de Sued fixa um pólo solar, intenso e generoso, que entre outras coisas vem a ser contraste e complemento ao fulgor noturno da obra extraordinária de Iberê Camargo.

Em consonância com uma complexa experiência moderna que já era a sua, e que ainda não pertencia de todo a Volpi e DaCosta, Sued pôde, por assim dizer, consumar o processo de formalização abstrata empreendido, sobretudo, por esses dois notáveis pioneiros. Em rápidas (e, portanto, insuficientes) palavras: eliminar os últimos vestígios de figuração e de cor local, o clima sugestivo ou rememorativo que ainda encantava aquelas pequenas telas, para chegar a uma presença de pintura decididamente aberta e atual, que de fato “estala” na superfície do mundo. E o que fez graças ao empenho incondicional à tarefa de decifrar por conta própria a inteligência plástica de Picasso e Matisse, Klee e Morandi, de absorvê-las emocionalmente até transformá-las em matéria nativa de seu espírito.

Assim, desde meados dos anos 70, Eduardo Sued domina um raciocínio plástico estrutural. O que o leva, fatalmente, a aproximar-se mais e mais do neoplasticismo de Mondrian, sem, no entanto, pagar o preço inibitório comum aos artistas educados pela didática da Bauhaus, sem abrir mão do princípio de incerteza cezaniano, o senso de aventura pessoal inerente ao modo de elaboração de uma lírica moderna.

Daí a aptidão para agir como um franco desinibidor espacial. Notoriamente, tudo ou quase tudo se passava em Volpi e DaCosta, em obediência à nossa insidiosa herança de intimismo, nos limites exíguos do formato convencional das naturezas mortas e das singelas marinhas. (Prova incontestável, a meu ver, do aspecto compulsoriamente privado de nossos autênticos esforços modernizadores, em contraposição ao caráter muito mais estatal do que realmente público da pseudo-modernidade de Portinari).

Tal espaço exíguo corresponde ao campo visual de um Eu isolado – a sua tela anuncia um momento moderno, emancipado, de construção formal, independente, mas prossegue narrando, até certo ponto, vivências particulares em ambiências particulares.

Em Sued, o plano espacial já não corresponde a nenhuma visada psicológica: desde logo pressupõe e participa de uma comunidade intersubjetiva universal. E nesse plano o artista entrega-se ao livre exercício de uma voraz combinatória de retângulos variáveis que anseia por áreas amplas e acordes cromáticos vigorosos, de alcance e impacto que se desejam públicos. A rigor, um sentido prospectivo de renovação social é o horizonte histórico final dessa pintura que deixou para trás a referência ao horizonte natural. E o próprio da poética de Sued (na seqüência do neoconcretismo e seu questionamento crítico acerca dos fundamentos racionalistas da tradição construtiva) é desafiar a suposta idealidade pura do plano geométrico ao fazer de cada quadro um agente problematizador do espaço. Daí as síncopes e divisões paradoxais, as múltiplas articulações de planos ou, inversamente, o recurso a vazios um tanto abissais. Pintar afinal é se haver, se debater e se entreter com o fenômeno incessante e inesgotável do espaço, pintar é materializar uma pergunta recorrente pela forma contemporânea do mundo.

Mas, acima de tudo, Eduardo Sued é um liberador da energia da cor, um corajoso colorista brasileiro de sensibilidade contemporânea – tanto pelos agudos azuis, amarelos e vermelhos quanto pelos graves ocres e pretos ou pelos cinzas e prateados atonais mais recentes. Semelhante inquietude reflexiva e semelhante variedade de humores cromáticos vitais geram um acúmulo de experimentos estéticos que aos poucos vão se incorporando e enriquecendo o nosso anônimo laboratório cultural cotidiano. Na verdade, Sued introduz na pintura brasileira de vocação construtiva um nexo sistemático de obra em progresso, uma dinâmica célere de transformação que faltavam a Volpi e DaCosta na medida em que jamais puderam se apropriar por completo de uma compreensão estrutural, abstrata, da razão estética moderna.

Dedicada quase exclusivamente à pintura, a obra de Eduardo Sued acaba curiosamente próxima, sobretudo, à de dois eméritos escultores – Sérgio Camargo e Amílcar de Castro. Muito claramente, em termos históricos, trata-se de realizadores (em contrapartida a imprescindíveis propositores como Lygia Clark e Hélio Oiticica) que assimilaram profunda, mas, livremente o método construtivo para torná-lo, cada qual a seu modo singular, mais maleável e aberto ao impulso lírico, menos programático e, por isso mesmo, talvez se possa ariscar mais socrático.

BRITO, Ronaldo. O Pensamento Contemporãneo da Cor. In: Eduardo Sued - Pinturas 1980 - 1998. Centro de Arte Hélio Oiticica, 1998, p. 13

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